quinta-feira, 26 de novembro de 2015

Singeleza

Para Mariana, a Naninha, à janela para o seu grande dia.
Para um menininho, o Chiquinho, que não vejo a brincar.



Do corguinho, ouve-se o xep, xep da vassourinha da vovó.

A Vó quer varrer da varanda a madrugada, mas a manhã está de molho atrás do morro. Manhã manhosa ̶  a Vó se molesta ̶ não abre a mala do seu mágico claro. Vai ver, zzzzz! E a Vó verseja: a manhã puxou à moça namoradeira, a que fica a raiar o olhar para o espelho, noite adentro. Só sai do molho pra jogar na bica as mazelinhas de namoro.

―Mas a manhã está no menininho a falar com o Chupim que está no ninho do Tico-tico.... Não vê, Vó? ̶ o invisível lhe diz.

Hã-hã?, e a Vó avoa um riso ao menininho (porque basta um riso para o brotar do brilho da alegria nos olhos de alguém). Então Chupim se chacoalha no ninho do Tico-tico. Que tipo! O menininho não o quer no chafariz da estrela que deu à menina Stela. Chupim bate as asinhas (um dar de ombros?); menininho lhe aponta o dedo (um dar de ordens?); Vó entra no meio (um dar de bronca?), que toda briga a ninguém abriga. E Vó jura um xep, xep nas cores da saudade do menininho por Stela. Aí o vento se espreguiça (o vento é cúmplice por levar e trazer as saudades do menininho e de Stela). O vento distrai a Vó da jura que fez, jogando, na mais bendita singeleza, a ciscalhada pra varanda. Ô!

Do corguinho, ouve-se o xep, xep da vassourinha da vovó.
 

segunda-feira, 5 de outubro de 2015

Até onde busco Maria?

     Para Élida Lemes



     Muitas árvores do tipo canafístula, serenas, que o vento aqui não tem pressa. Arbustos floridos divisam os limites das casinhas ao estilo antigo dos campos franceses. As casinhas que estão sob as árvores por estética, porque o sol ― e eu caminhei muito sob o sol ― nada tem de bruto.
    As pessoas passam tempo nas ruazinhas sinuosas, planejadas, entre as árvores. Como sempre, umas tristes, cabisbaixas; outras de feição alegre, erguida. Umas, me parece, andam como a não pisar o chão; outras carregam o cansaço na mala. Mas todas com jeito de se ter lugar pra chegar.
     Eu, não. Sôfrego como eu, só eu: coço a testa, roo unhas, tombo a cabeça para as mulheres de cabelos negros e longos. Comprimo o olhar numa e outra, me aproximo, uma me olha, outra morde o lábio, mas o esforço é só mais um capítulo do desalento: nenhuma tem o sorriso e o olhar que busco.
     Não sei do tempo de busca. Ainda não atinei para a noção de tempo. Creio que a noite se faz quando o dia se ofusca, e eu vejo maiores a lua e as estrelas. O que sei é que eu me sinto cansado por não a encontrar, porque isso decreta meu coração.
     Entrego os pontos? Coração dói. Tudo dói. Entro numa ruazinha, quero sumir, vazar o horizonte. Mas com pouco vejo uma mulher de cabelos negros e longos, sentada de frente para os campos de quaresminha. O coração dá saltos: é ela!
     É ela até o “Oi, com licença”. Que se vira, dá-se mais um capítulo do desalento: não tem o sorriso e o olhar que eu busco. Ou que eu buscava, porque um casal de jovens se aproximou, e a moça, me dando a mão, disse com carinho: “Venha. Estás confuso. Precisa-te descansar. Logo terás permissão para ver Maria, na Terra. Venha”.


sexta-feira, 28 de agosto de 2015

Madrugada, 5 h.

“De repente, o mundo inteiro é um silêncio absurdo. Só porque se calou a tua voz”. Silêncio. Marina Alves.
www.recantodasletras.com.br, 2015.


Ave, se alguém souber de mim à janela, madrugada, 5 h. Mas sabe que de saber até que vai? Dou jeito, tiro o corpo fora. Nego a cair de costas. Duro é ser visto com esta cara de sonhos afundados no poço da indiferença dela. Negar, como?! Aí, claro que irão dizer: “Sabia. Estava na cara que suas flechadas de amor iam topar a pedra da Gávea no caminho do coração dela. Só você não via.”
      Com a cabeça à roda, vivo “esse silêncio absurdo porque a voz dela se calou” (1). Ô! A casa está ao jeito de fim de feira; mas o lençol da minha cama, esticadinho. E a coisa piorou quando me disseram que alguém disse que a flecha de certo homem acertou em cheio o coração dela. Apre! Até parece que a vida é de um dia, e o que passo é de três.
      Então eu tento panos quentes em mim. Mas acho que estou a me enganar, ao afirmar que a vida é assim, que “viver é muito perigoso…” (2). Então eu me lembro da minha mãe: “Se a coisa tem solução, não bagunce o coração, pois tem solução; mas se a coisa não tem solução, não bagunce o coração, pois não tem solução”. Mas mãe! A solução é ela, e agora, agorinha, já!
      Quer saber de um caso? Madrugada, 5 h., vou sair da janela, não dar a cara ao sereno, me desatar deste nem ato nem desato e quebrar a lisura do lençol, o que não quer dizer pegar no sono. Até porque daqui a uns.... Ih, está é na hora de o bem-te-vi, o que dorme nesta arvoreta de lado, acordar. E eu não quero que ninguém, nem bem nem mal, me veja com esta cara de sonhos afundados no poço da indiferença dela. Ah, não quero mesmo!

(1)Silêncio. Marina Alves, 2015 – recantodasletras.com.br
(2) Grande sertão: veredas. João Guimarães Rosa

sexta-feira, 21 de agosto de 2015

Ninguenzinho

     Ao suspiro do vento, as folhas caem. Aqui, como no morro acolá, que faz pose pro céu, o inverno segue com a peripécia de despir os galhos.
   Dormem as árvores, acordam as aves para  as sombras a beira-rio. O que fica é um insosso de sem cantos e voejos. Passa tangará, passa viuvinha, passa canarinho... Só não passam os pios de pranto de um pintinho, o Pio-pio-ninguém, que diz o morador; o Ninguenzinho, que diz meu coração.
     Ninguenzinho plange a dor aos fiapos de sombra de uma roseira pelada. Chega, espicha o pescocinho e fica a bulir a cabeça que nem ponteiro de relógio; decerto sem ver a hora de fazer a festa do cisco com a mãe e os irmãozinhos. Qual! Seus pios de pranto não se revelam além da linha do seu abandono.
     A vida tem dessas parecenças. Há anos, deu-se o abismoso de uma mãe renunciar ao filho, ainda em panos, numa lixeira de rua. Agora é o Ninguenzinho a sofrer o rejeito. E ele pia que pia pelo terreiro, e cada pio é um pontinho do seu coração a se secar.
     Mas é que a vida gosta de voltejo e ardileza: o filho largado foi ter-se com uma senhora num asilo, e, se no olhar se brota um trato, ela se foi para a sua casa. E ele lhe foi todo cuidado, espargiu-lhe carinhos de filho com imensa falta da mãe ― e não é que ela fechou os olhos para esta vida sem a coragem do “perdão, filho, por ter-lhe dado à lixeira?”
     Ao suspiro do vento, as folhas caem. Aos pios de Ninguenzinho, se cai o pavio do viver, se encaixa mais e mais, por ardileza da vida, o seu convívio com a mãe. No olhar do morador transparece esse preciso: a mãe ao fundo do quintal, largada pelos franguinhos, quiçá mordida por um réptil, quiçá picada pela solidão, recebe o encosto de Ninguenzinho, que lhe bica na asa como a dizer “estou aqui, mãe.”
     Até lá, passa tangará, passa viuvinha, passa canarinho... Só não passam os pios de pranto de Ninguenzinho.


quarta-feira, 5 de agosto de 2015

Bênção, pai!

“De repente, não sei dizer se foi o céu que desceu à terra, ou meu coração que mudou de lugar”. Presença. Marilene Amaral Branquinho. www.recantodasletras.com.br/T3567956, 21/3/2012.



(...) O que é, é que lá vem meu pai, suado pelo trato ao chão seco e indócil como calos. Descanso nele o olhar, e meu pai é o retrato do farto do roçado, do feijão no meu prato esmaltado.
Sei do que muito lhe toca: a noite de Natal. E insone, prego um olho nas minhas chinelas na janela, o outro numa sombra, um vulto entre a hóstia do luar e o galope do meu coração:

“Não é nada não, menino. Psiu! É seu pai a se passar pelo velho Noel. Dorme, menino”.

(...) O que é, é que meu ar de moço, sopito, insosso, tombado pro chão por ruína de um amor desfeito, é sentido e erguido e esteiado por um raio do olhar do meu pai, o que percute em mim o sino da lição aprendida.
Sei do que muito lhe cabe: os calos puxando enxada, os punhos de aço (Que cansaço?), as mãos firmes do meu pai a moldar o lar: encheram a despensa, mostraram caminhos, as mãos do meu pai.

“Não é nada não, meu filho. Psiu! É seu avô a se passar por estrela. Abrace-me, filho”.

(...) O que é, é que o pocinho do fundo dos olhos se enche e derrama. Minhas mãos, calejadas, e as do meu filho, verdes, mas já com os traços do caminho, deixaram meu pai na estação: meu pai viajou pra tocar outro roçado.
Então sou eu, toda noite, ao terreiro, pr’uma estrela que pisca toda sobre mim: “Bênção, pai!”. Só aí me recolho pra hóstia de luar que entra pela janela e me faz dormir.

sexta-feira, 24 de julho de 2015

Cabides vazios

     Entre os seios da montanha, a volúpia do matiz do sol vinha como aura ao trem que cantava nos trilhos “ma-ri-a-ma-ri-a-ma-ri-a”.
     Muita alegria dá nisso: entorna-se em agonia. Mas à alegria me mesclei. Não me aceitei sem o minucioso mágico de ver chegar o trem que me trazia Maria. Na estação, era como se tivesse em mim um pote de cores e dele escapassem, volúveis, estelares, as que iriam tingir o nosso mundo, o meu e de Maria.
     Aí o trem parou na estação. Aí fui eu, coração de menino a solta, impulsor, sem a nada fazer de conta, pois a vida era a paixão que me levitou até Maria. Maria no meio das gentes; gente que partia, gente que chegava. Milhar de gente, e uma pra mim: Maria de malas no chão.
     Então tudo o que nos cercava se eterizou. Ou ficou na outra margem da deslembrança, que separa planos de vida. E estamos, eu e Maria, noutro plano... Tanto que a janela do meu quarto dá para a constelação de Pegasus, e a estrela Enif dá vida a sua cor laranja em cada fôlego nosso para o beijo.
     Logo ali (e eu a abraço, à janela), depois de Pegasus, logo ali, um beijo depois de Pegasus, a grande constelação Amare, donde nos saltou o amor que vivemos e que nos estrela com faíscas da alegria. Encosto meu rosto no dela para ouvirmos as líricas canções que vagam pelo cosmos.
      Mas aí é que muita alegria dá nisso: entorna-se em agonia. Que Pegasus se apagou, e nada de trem a cantar nos trilhos “ma-ri-a-ma-ri-a”. Há sim o meu gatinho a miar no meio do quarto com medo da chuva, que antes é o vento a bater a janela e os cabides vazios. Então fica assim: eu me sento na cama, pego o gatinho pra cama e deito os olhos nos cabides vazios, caído na certeza dorida de ter vivido mais um sonho de saudade de Maria.


quinta-feira, 16 de julho de 2015

Vizinhos na sacada

    Penso que ela vê a rua como eu: gente que nem fileiras de formiga. Uns, no molde do dia que não terá mais noite; outros, da noite que não terá mais lua. Vi um, e aquele ali, ao feitio de quem se desfia por um fio de amizade; outros, e mais aquele, no anseio por um coração, vêm doando abraços.
    Nos de olhos pro chão, creio, em busca de um “sim” que lhes erga o rosto, escapa agonia; naqueles, de olhos pro Céu, é volátil o alívio de um “não”, não ouvido. Aquele, incontestavelmente, roga por um retalho de aconchego; este, alheio aos outros, empina-se na rua, a exibir a gravata lilás.
    Uns se beijam sob marquises, sob juras, sobre nuvens; outros... Espera aí: e eu e ela, a vizinha? Ela se recolhe e regressa à sacada de batom vermelho e cabelo solto. Leio o apelo da sua nova imagem na sacada: “Por favor (Alguém aí?), eu entendo de amor e de amar!". E eu, igualmente inglório, me recolho, me sento ao computador e abro Minhas Imagens para curtir a foto de alguém. Alguém que há quase um ano...



quarta-feira, 8 de julho de 2015

As lágrimas

       A tez, negra, brilhava tal a bondade do coração. O olhar, negro, trazia do fundo dos olhos os raios de cristal ao sol. E ele, menino, ia a novo sonho quando a madrinha negra entrava no seu quarto ao raiar o dia e lhe puxava o lençol ao peito. E ele, fingindo sono, sentia, nesse instante, o desejo, a um triz da explosão, de pegar e beijar as mãos que lhe cobria. Mas não: imperava o estúpido receio de soltar as lágrimas de gratidão, posto que se fizessem tolas nas mãos da madrinha.
    A tez, negra, amanhecia como a canção de senzala a vibrar os raios da esperança. A voz, negra, brotava dessa esperança de liberdade já tão verdade quanto à luz do dia. E ele, moço de vez, vivia estrelário prazer quando a madrinha negra lhe trazia, ao prato, a comida ao seu sabor. E ele, fingindo calma, sentia, nesse instante, o desejo, a um triz da explosão, de beijar as mãos que lhe servia. Mas não: imperava o estúpido receio de soltar as lágrimas de gratidão, posto que se fizessem tolas aos olhos do mundo.
     A tez, negra, jazida com o corpo à mesa, brilhava tal a nova vida encontrada. O olhar, negro, fechado, agora via outras paisagens. E ele, de cabelos brancos, taciturno, viu alguém se aproximar e deixar cair, sem pingo de receio, lágrimas de gratidão sobre as mãos da sua madrinha negra... As mãos, uma sobre outra, molhadas de lágrimas sobre o ventre.


segunda-feira, 29 de junho de 2015

Prosinha

Um causinho de Seu Zequinha e dona Belinha, lá de Cabaça.

"Eu diria que o tempo é um fiapo de paina no ar com o poder de Thor”.


Olha, foi um... Ah, ele nem sabe o quê.
Mas ao que der e vier de um coração violeta de paixão, isso ele tira de letra.
Pisou na lua – pensou - à procura duns pingentes: brincos de estrela.
Brincos tão sonhados para quem, hã?
Para ela, a Belinha!
Mas que viu, não era a lua, e sim o chão, o chão de Cabaça.
E o chão se lhe sumiu dos pés, porque Belinha deu de ombro, pouco caso fez dos brincos.
Aí ele se despencou do sonho.
Mas conseguiu frear o coração
― que coração fica buliçoso e feliz com o que não tem.
Deu tempo ao sobressalto da paixão: toma, tempo, toma conta.
E aí, o que se deu? Tá escutando Belinha, lá na bica?
Pois é, Belinha canta e assobia e arremeda bicho e os passarinhos.
Não tira os brincos pra nada; nem para o lustre.
Belinha é esse bonito da  sua vida, dês que ele abriu a porta pros seus suspiros.
Hoje, é um... Ah, ele nem sabe o quê.
Mas ao que der e vier dos corações debaixo da coberta, isso Seu Zequinha tira de letra.

(Fim da prosinha, lá-e-vem dona Belinha pro cafezim, balangando os brincos. O meu olhar bate aqui e ali, nas florezinhas, e descamba pro mais longe, pros ipês, pro azul da serra).


quinta-feira, 25 de junho de 2015

Na Rua Sem Sol

Caiu na busca, nesta rua comprida e torta e tosca, que traça com esmero o perfil de quem se joga nas suas calçadas, entre bêbados e rudes e súditas a atracar os homens a seus decotes: “Oi, homem bonito, tem aí um cigarro?”
         Exausto do vaivém, para à luz de uma fresta de janela de quarto e lamenta que o número só exista na palma da sua mão. Do quarto, escapam risinhos e gemidos tão lhe desditos, que ele sai do foco da luz para se recompor do “Será?! Não, não pode ser!”.
        Segue teimando na busca. Faltam alguns minutos para amanhecer, e dia claro o esforço é em vão, pois a rua é a Sem Sol, de sem-sal, um salão de fantasmas. Mas meu Deus, a que número chamar, ou invadir? E, se assim, que porta de quarto arrombar?
         Eis o dia! Lá se foram os bêbados e os rudes e as súditas frouxas de affair. Eis a Rua Sem Sol! Mas ele não desiste da busca. Não quer ser sonhador desvairado, o que vê baldado o pedido de um filho. E ontem, ao se deitar, seu filhinho entrou no seu quarto e pediu: “Pai, busca a minha mãe pra casa? ”


sexta-feira, 19 de junho de 2015

Coração aflito, ou Mãe, acorda!


“Você, como você, não mais existe. Até o vazio insiste em ser você”. Prateando versos: sonetos. / Odir Milanez da Cunha. - Olinda: Livro Rápido, 2014.



É a minha mãe!
Na cama, uma  pétala sem o vento.
Psiu como o escorrer do dia à noite.
Mas olha a sua mão!
A mão da minha mãe  nas minhas, e as dela têm as  marcas do arroubo do amanhecer.
Mãe, acorda!
A mão da minha mãe nas minhas, e as dela têm o cheiro do feijão ao fogo.
Têm o som do crepitar do fogo.
Têm o gosto do araçá do mato.
Têm o calo dos  cabos da vida.
Mãe, acorda!
E minha voz é sertão. E minha vida é o engaço da fruta que caiu, pois minha mãe é tão silente quanto a mim, sem ela.
Mas olha a sua mão!
A mão da minha mãe nas minhas, e as dela têm o cheiro da minha nova cartilha.
Têm o furo da agulha de linha.
Têm o molde da minha camisa.
Têm os suores por meu sorriso.
Mãe, acorda!
Acorda, mãe!
E eu choro de alegria porque minha mãe abriu os olhos, correu a mão no meu rosto e disse, sem ferir o silêncio: “Bom-dia, meu filho!”
Ufa!
- meu coração se aquieta.


quarta-feira, 3 de junho de 2015

Ao pé de goiaba

      O banco dele é o que tem à frente o canteiro de miosótis e a fonte luminosa. Vai ali para ler livro ― e cochilar, e até sonhar. Aí, um dia, um menino de uns doze anos saltou-se ao seu lado.
     ― Quer conversar?  ―  o  menino  disse, de cara.
     ― Estranho, isto  ― o velho foi pragmático. E disse consigo: “Eu, hein? Nesse mundo de hoje...”
    ― Estranho, não ― o menino insistiu. ― Só saber do senhor, em menino. O senhor namorou?
     ― Se namorei?!
     Um menino com esse assunto, ainda mais à primeira vista, foge aos padrões. Mas pela paz que escapulia do verde sobressaído dos olhos dele, o velho deu linha à pipa da sua indiscrição:
     ― É, namorei. Escondido. Tinha a sua idade. Como você se chama? Toím? Ué! Eu, Antônio. Mas em menino, Toím também. A sua casa tem quintal, Toím? Ah, é? No meu quintal, também três pés de manga. Que mais? Ah, a minha mãe também não iria ficar sem jabuticaba! Que mais? Goiabas? Vermelhas?! Olha só! O meu quintal, Toím, era o seu sem tirar nem pôr. O meu namoro? Ah, está bem, eu te conto. Bom, era a Verinha... Olhinhos de jabuticaba. O cabelo, preto também. Encaracolado. O meu pé de goiaba, quase ao muro; o dela, também. A gente subia neles e trocava olhares entre as folhas. Um dia, ela sussurrou uma coisa, e eu fui pelo galho que nem um mico; mas que ia tocar os dedinhos dela, o galho se quebrou e eu ganhei essa marca aqui, ó. Ah, você também tem uma cicatriz! Hã? Nem me lembra, Toím! Foi numa triste manhã. Um caminhãozão levou Verinha e seus pais, de mudança. Daí eu subia ao pé de goiaba pra chorar. Acredita? Parece que cortaram o meu mundo e só ficou o meu irmão pé de goiaba. Um dia, que enxuguei os olhos com a gola da camisa, eu a vi. Mas foi o vultinho dela e, aí Toím, ó, nunca mais. Toím! Toím! Ei, Toím! Cadê...
      Toím sumiu. Evaporou-se? O velho não mais o viu. Aliás, ele acha até que Toím foi só um vultinho; que nem o de Verinha. Um vultinho do seu eu, menino; do seu eu, Toím, e só.






terça-feira, 5 de maio de 2015

Tipitinha

Às mamães, intrépidas mamães, precisas mamães,  angélicas mamães.



      ― Tipitinha!
    Tipitinha fala com a boneca Pitanga, ao jasmim-azul:
      ― Minha mãe, Pitanga. De novo. Aqui, maeê! No jasmim, tá? (pausa) Ela reza por meu pai no Céu, Pitanga. Não sabe que meu pai vem brincar de esconde-esconde co’a gente.
      E o pai apareceu, parece, de trás do pé de limão amarelinho. Um tipo de mágica, se é mágica a ternura que os envolve. De dedo nos lábios, “Psiu!”, se abaixa e abraça Tipitinha.
      Por trato, ela não revela, ainda, que brinca com ele. “Que tal, um buquezinho a sua mãe? É o Dia das Mães!”. “Hum, rum?!”. “Então diz a ela que irá colher uma florzinha pra Pitanga e já volta”. “Tá. Maeê!...”.
      A caminho das chuvinhas-de-prata, Tipitinha ouve, atenta, o pai a falar de uma palestra que um velhinho proferiu, no lugar onde ele vive:
      “Tipitinha, olha, ele falou que Deus fez isso, ó, para criar a mãe. Que a mãe deveria ter o jeito guerreira, a cura dos machucados no beijo, o repouso nos braços para o abraço. Nos lábios, o ânimo às asas caídas e o risinho perdoador à torta fuçada no forno. Teria um olho especial pra ver o que se passa com quem se tranca em si. No coração, cantigas de acalentar filhinha e papai. E Deus fez isso, e mais, na sua mãe, que, à falta da minha, me foi mamãe”.
      Buquezinho arranjado, a mãe a pega no pulo: “A falar sozinha, filhinha?”. Tipitinha olha pros lados ― Ué! ― e vê o pai com o dedo em “Psiu!” ao pé de limão amarelinho, pronto pra ir embora. Enrola-se: “Não, né mãe? Sabe, sim, é que vim fazer buquezinho pra você. Não é o Dia das Mães?”.
       A mãe a beija, a aperta, cai-lhe lágrima, mas desconfia de que nesse mato tem coelho, porque mãe, como diz o pai de Tipitinha, “só pode ter pacto com um Anjo de olho aberto, outro arregalado”.




sexta-feira, 10 de abril de 2015

A vovó e o vento travesso

À vovó Isaura Alves de Almeida, a “Mainha”, na sua luta abençoada para o cumprimento da vida exemplar.




Nunca, sozinha.
Sou avó de tudo.
Até do vento, vagamundo batedor de janelas.
Nunca, silêncio.
A vassourinha  suspira  xep-xep-xep  pela casinha.
Pego e abro a porta: nheeec!
O vento escuta.
Ouvido do vento é que nem o do Saci
Aí a poesia do varrer a casinha perde versos.
É que o vento é travesso.
Moleque!
Borrecido!
Dou-lhe vassourada.
Ralho “toma tipo, siô!”.
Ele se some por aí.
A vassourinha suspira xep-xep-xep pelo terreiro.
E não é que o danado do vento volta no galope da teimosia?
Pirracento, ai, ai, esbandalha o cisco: foias e gravetos no ar.
Faz peripécias do cisco.
Faz peripécias de mim.
Mando passear nos morros.
Ele se some por aí.
Mas hoje sumiu, sumido.
Dei de ombros sem querer qu’ele fosse: “Importa-me lá!”
Tardezinha, ponho os pés no chão fresco do pé de amora.
Mas que é do vento?
Pego e abro a porta do meu coração: oooh!
O vento escuta e  vem-me  adular na nuca.
Eh, eh, acho bom o seu soprinho.
Até me rio pr’ele não ver, eh, eh.
E digo pra mim pr’ele não se convencer:
“Some de mim mais não, seu travesso”.







domingo, 22 de março de 2015

Gui Passarim

Gui está de olho num velhinho com sua viola. O velhinho entoa uma modinha: “Canta, canta bem-te-vi, pra eu ouvir. Canta, canta sabiá, pra me consolar”.
Gui está no sítio com sua mãe. Tira os olhos do velhinho e deita o olhar nas árvores do quintal, limpinhas da chuva. Ah, é só isso, “canta pra eu ouvir, canta pra me consolar?”, ele pensa.
     Começa o desinquieto porque quer ser passarinho. Quer ter um passarinho amigo, voavoar, furar nuvem, brincar no céu, nos galhos... Mas qual a minha cor? E decide ser amarelinho da cabeça vermelha.
      O velhinho parou a cantoria, o dia foi  dormir, as aves  também. A mãe do Gui o aquieta com “cama, que amanhã é ir embora cedinho”. Quieto? O Gui, quieto? Vai querendo, mamãe! Nem em sonho, porque em sonho Gui é passarinho.
     Voa vrap aqui, vrap ali, e encontra o papagaio Zeca num pé de mamão. E seu nome? – Zeca pergunta – O meu? – Ih, Gui coça a cabeça porque não tinha escolhido o nome – Ah, pode-me chamar de Gui, tá? Gui Passarim, tá? Tá – disse o Zeca – Vamos brincar, Gui? Vamos naquela nuvem?
     Oba! Nuvem pra lá, pra cá, e tome quintal. Tempo de tudo: amora, goiaba, mamão. A mãe assa biscoito em argola, o biscoito cheira. A mãe descuida, e eles furtam biscoito. A mãe lava roupa, suas peças, e que vê, cada um com calcinha na garra.
     Vrap aqui, pra’li e na varanda. A mãe quer-lhes sentar a vassoura, Zeca lhe tira a tiara, Gui lhe faz titica no cabelo. Estripulia essa e aquela, escapam de arapuca. Mas Gui enfia o bico no mamão verde, e o leite do mamão gruda o seu bico. E agora?
     Agora, que o bico não abre. Gui se aflige: bate as asinhas, cai de costas, bate o bico no chão, passa a garra no bico, o bico não se descola. Nossa! Será que... Será, nada. Será, que a mãe do Gui o sacode na cama: “Acorda, Gui, já é hora!”.
     Gui volta pra cidade. Quieto, à janelinha do carro, vê  pássaros voando. Pensa, sem parar, o quanto é difícil a vida de passarinho... A não ser os passarinhos que o velhinho canta: “Canta, canta bem-te-vi, pra eu ouvir. Canta, canta sabiá, pra me consolar...”.


Texto dedicado ao meu amiguinho Guilherme Cavalcante